Se você sobreviveu à cultura pop do final dos anos 2000, você provavelmente tem uma opinião sobre True Blood. A série da HBO, que estreou em 2008, não era apenas um show sobre vampiros; era um suco de caos sulista temperado com feromônios, sotaques forçados e uma quantidade preocupante de fluidos corporais.
Hoje, olhando pelo retrovisor (e talvez com um pouco menos de glitter na pele do que os fãs de Crepúsculo), fica a pergunta: True Blood era um gênio incompreendido ou apenas uma novela de luxo com dentes mais afiados?
O Contexto: Sangue Sintético e Metáforas Óbvias
A premissa era instigante: vampiros "saíram do caixão" graças à invenção do Tru Blood, um sangue sintético japonês que permitia que eles coexistissem com humanos sem precisar jantar o carteiro.
Alan Ball, o criador (que já vinha do sucesso fúnebre de Six Feet Under), usou a pequena cidade de Bon Temps, na Louisiana, como um microcosmo para discutir direitos civis, fanatismo religioso e exclusão social. A metáfora era tão sutil quanto um soco de um lobisomem, mas funcionava. Pelo menos nas primeiras temporadas.
O Triângulo (ou Polígono) Amoroso
No centro de tudo, tínhamos Sookie Stackhouse (Anna Paquin). Sookie era uma garçonete telepata que, por algum motivo, achava que namorar um morto de 173 anos era uma solução viável para seus problemas de privacidade mental.
Aí entra Bill Compton. Ah, "Beel". O vampiro cavalheiro que passava metade do tempo salvando Sookie e a outra metade parecendo que tinha acabado de comer um limão mofado. Do outro lado, tínhamos Eric Northman (Alexander Skarsgård), um viking milenar que servia como o "bad boy" oficial, provando que a altura e um maxilar bem definido podem redimir séculos de crimes de guerra.
O Que Funcionava (O "Doce" do Pântano)
A Atmosfera: A abertura da série — ao som de Bad Things de Jace Everett — é, até hoje, uma das melhores da história da TV. Ela capturava perfeitamente o suor, a religiosidade tóxica e o perigo do pântano.
Lafayette Reynolds: Vamos ser sinceros, Nelsan Ellis (que descanse em paz) carregou essa série nas costas. Lafayette era a alma de Bon Temps, trazendo humor, humanidade e o melhor gloss labial da televisão americana.
O "Camp": A série abraçava o ridículo. Ela sabia que era uma "farofa" (como dizemos no Brasil). Quando uma bacante começou a organizar orgias gigantescas na cidade e as pessoas ficaram com os olhos pretos, a série não pediu desculpas. Ela acelerou.
Onde o Sangue Coagulou (A Crítica)
Nem tudo eram flores (ou lírios do pântano). Por volta da quinta temporada, True Blood sofreu de uma doença comum na TV: a Inflação de Criaturas Mágicas.
O que começou como um drama tenso sobre vampiros e humanos de repente virou um zoológico místico. Tínhamos:
Lobisomens (que passavam 90% do tempo sem camisa, por motivos contratuais, imagino).
Metamorfos (Shifters).
Bruxas e médiuns.
Fadas (que, convenhamos, foram o ponto onde a série "pulou o tubarão").
Ifrits e outras entidades que ninguém mais conseguia acompanhar.
A trama política da Autoridade Vampírica tornou-se densa e, por vezes, arrastada. O tom satírico que equilibrava o horror e o sexo começou a pender perigosamente para o lado da paródia involuntária.
Ótimo Entretenimento, Péssimo Guia de Relacionamentos
True Blood não era uma série perfeita. Ela era barulhenta, confusa e, às vezes, genuinamente estranha. Mas ela tinha algo que falta em muitas produções assépticas de hoje: coragem de ser feia e suja.
Ela explorava o desejo humano de uma forma visceral, mostrando que os monstros nem sempre eram os que tinham presas, mas sim os que usavam gravatas ou bíblias para justificar o ódio. No final das contas, Bon Temps era um lugar onde ninguém era puramente bom ou mau — apenas muito, muito carente.
Se você procura por coerência narrativa absoluta, passe longe. Mas se você quer uma jornada selvagem, com sotaques sulistas duvidosos e reviravoltas que fariam um autor de novela mexicana chorar de inveja, dê um gole nesse sangue sintético. Só cuidado com o sol no dia seguinte.

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