Se você achava que a crise dos vinte anos era difícil porque você não sabia fritar um ovo, imagine ser Sherlock Holmes aos 19. Enquanto nós, meros mortais, nessa idade estávamos preocupados em não reprovar em Cálculo I, o jovem Sherlock de Guy Ritchie está ocupado sendo expulso de Oxford, fugindo de conspirações globais e, aparentemente, testando quanto gel de cabelo vitoriano é necessário para manter o topete intacto durante uma perseguição de carruagens.
A série, que estreou no Prime Video no início deste mês, traz uma proposta que faz todo sentido no papel, mas que faz os puristas de Sir Arthur Conan Doyle terem tonturas: e se o maior detetive do mundo fosse um "rebelde sem causa" com um sotaque impecável?
O Estilo "Ritchie" de Deduzir
A primeira coisa que você precisa saber sobre Young Sherlock é que ele não é um detetive sentado em uma poltrona fumando um cachimbo. Esqueça o violino melancólico por um momento. Guy Ritchie trouxe para a série aquela sua assinatura clássica: cortes rápidos, câmeras lentas que aceleram do nada (o famoso speed ramping) e uma edição que parece ter tomado três xícaras de café expresso antes de começar.
Nesta versão, a "Palácio Mental" de Sherlock não é uma biblioteca silenciosa; parece mais um videoclipe de britpop dos anos 90 misturado com um diagrama técnico de engenharia. É visualmente estimulante, quase hipnótico, e serve para disfarçar o fato de que o nosso protagonista ainda é, tecnicamente, um adolescente mimado que precisa de um corretivo.
Nem tão Genial, Nem tão Bobo: O Equilíbrio Neutro
A grande questão aqui é a neutralidade da crítica. A série não é o desastre que os céticos previram, mas também não substitui o vácuo deixado por Benedict Cumberbatch ou Robert Downey Jr. (que, aliás, é produtor executivo aqui, passando o bastão da arrogância charmosa para a nova geração).
O Lado Bom: O elenco é magnético. Ver Sherlock em um ambiente onde ele ainda não é a pessoa mais inteligente da sala (pelo menos não oficialmente) humaniza o personagem. Ele erra. Ele apanha. Ele se apaixona por pessoas que claramente vão traí-lo no terceiro ato. É divertido ver o "mito" sendo construído através de tropeços.
O Lado "Humm...": Às vezes, a série se esforça tanto para ser "cool" e moderna que esquece que Sherlock Holmes é, essencialmente, sobre lógica. Em alguns episódios, a resolução do crime parece vir mais de uma coreografia de luta bem executada do que de uma dedução brilhante sobre as cinzas de um cigarro raro.
Um Sherlock sem Watson é como...
...um blog sem comentários. A dinâmica faz falta, mas a série compensa focando na família Holmes. O relacionamento com Mycroft — que aqui parece um monitor de acampamento excessivamente burocrático — traz as melhores faíscas de humor. É o suco do drama familiar britânico: muita etiqueta, chá frio e insultos passivo-agressivos disparados com a precisão de um sniper.
Veredito: Vale o Play?
Young Sherlock é uma série para quem gosta de mistério com uma dose cavalar de adrenalina. Se você busca uma transcrição fiel dos livros, talvez termine o primeiro episódio com um tique nervoso no olho. Mas, se você aceitar que este é um Sherlock "em treinamento" — mais próximo de um James Bond iniciante do que de um professor de lógica —, a experiência é extremamente gratificante.
Guy Ritchie não reinventou a roda, mas deu a ela aros de liga leve e uma pintura cromada. É um entretenimento sólido, visualmente impecável e que prova que, independentemente da idade ou da década, sempre haverá espaço para um homem magro de casaco comprido dizendo que todos ao redor são ligeiramente estúpidos.


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